
M. LIPMAN, Investigação Filosófica
"- Quando se
fala em pensamento, o que se quer dizer? Os pensamentos que temos na nossa
cabeça, como ideias, lembranças, sonhos e coisas assim, ou o modo como
pensamos?
- O que se quer
dizer com o modo como pensamos? perguntou Júlia.
- Era sobre isso
que o Ari e eu estávamos a conversar. É o que chamamos de pensar nas coisas até
entendê-las. Quando tu já conheces uma coisa e queres saber mais sobre o que tu
já conheces, então tens que pensar. Tens que decifrar as coisas, disse
rapidamente Luísa.
- Mas ter pensamentos
é diferente de realmente pensar. A minha cabeça está sempre cheia de
pensamentos. Eu não sei de onde é que eles vêm. Acho que são como as bolinhas
do meu refrigerante. Elas simplesmente vêm do nada, disse Fabiana.
- Eu não penso
assim. Para mim, os pensamentos são como morcegos, a dormir pendurados numa
caverna escura. Eles acordam de noite e ficam –se guerreando dentro da caverna,
fazendo barulho e eu não consigo dormir por causa dos pensamentos que passam
pela minha cabeça. Mas, às vezes, um deles sai da caverna e transforma-se num
pássaro, que voa livre e solto e, sem ter nada que o prenda, vai embora, e pode
seguir seu caminho até onde quiser, disse Julia tranquilamente.
- A Minha cabeça é
como um mundo particular. É como o meu quarto. No meu quarto tenho os meus
brinquedos e, às vezes, pego num ou noutro para brincar. Faço a mesma coisa com
os meus pensamentos. Tenho os meus pensamentos predilectos e tenho outros que
nem gosto de me lembrar, disse Luísa.
- Mas os
pensamentos não são reais, quer dizer, não são reais como as coisas do seu
quarto. O meu pensamento do cão Pingo não é o Pingo. O Pingo real é cheio de
pêlos, e o meu pensamento do Pingo não é peludo, comentou Júlia.
- Mas é um
pensamento real, disse Fabiana.
- Tu queres dizer
que, se o teu pensamento é parecido com alguma coisa que existe, então ele é
apenas uma cópia ou imitação e não é real? Assim, se existe um cachorro chamado
Pingo, então meu pensamento do cachorro não é real porque é só uma cópia do
cachorro? Mas eu tenho uma porção de pensamentos que não são cópias de nada!
argumentou Luísa.
- O que, por
exemplo? perguntou Júlia.
- Os números! Já
viste algum número a passear pela rua ou
parado por aí? O único lugar em que os números são reais é na minha cabeça. E
aposto como tem outras coisas que também só são reais na tua cabeça, respondeu
Luísa, triunfante.
- Tá bom! E os
sentimentos? Quando me sinto triste ou feliz, será que esses sentimentos não
estão só na minha cabeça? Eu também nunca vi um sentimento passeando pela rua!
interrompeu Fabiana."
(LIPMAN, M. A
Descoberta de Ari dos Telles, cap. 3, pp.12 e 13)
Plano
de discussão: Como
Pensamos?
1. De onde vêm
nossos pensamentos?
2. Eles originam-se
nas nossas próprias cabeças?
3. Consegues
pensar em algum pensamento que tu mesmo tenhas criado?
4. Os nossos
pensamentos são estimulados pelas coisas que vemos, coisas que nós
experienciamos no mundo?
5. Como é que as pessoas
aprendem a pensar? As pessoas precisam aprender a pensar ou é uma coisa que os
seres humanos fazem naturalmente?
6. Alguns
pensadores antigos achavam que a mente humana era como papel em branco onde
eram "escritas" as experiências. O que tu pensas disso?
7. Para outros
pensadores a mente humana não era algo a ser estimulado pela experiência.
Acreditavam que os pensamentos são anteriores a qualquer experiência. Diziam:
"Uma pessoa precisa ter pensamentos para dar sentido às suas
experiências". O que pensas disso? A mente pode ter pensamentos sem ter
tido experiência alguma antes?
8. Pensas que
precisamos de ter experiências antes de ter pensamentos?
(LIPMAN, M. Investigação
Filosófica. p.41)
Exercício: A realidade dos pensamentos
Alguns de nossos
pensamentos parecem ser cópias de coisas que realmente existem no mundo,
enquanto que outros parecem surgir de dentro de nossas próprias mentes. Neste
capítulo Luísa e Fabiana dizem que o pensamento do cão é uma cópia de alguma
coisa que existe no mundo, mas o pensamento dos números não é. Dos pensamentos
abaixo, diga se são sobre algo que existe no mundo ou não. Justifique.
- Pensamentos sobre um jantar delicioso.
- Pensamentos sobre o que se sente quando se leva
um tiro.
- Pensamentos sobre o que se sente quando se está
apaixonado.
- O pensamento de um patriota sobre o que é
liberdade.
- O pensamento sobre o filho que talvez tenha um
dia.
(LIPMAN, M. Investigação
Filosófica. pp.42 e 43)